Por que Finados é comemorado em 2 de novembro?

No Brasil, dia 2 de novembro é o feriado nacional de Finados. A data tem como referência a liturgia católica que assinala, nesse dia, a Comemoração dos Fieis Defuntos (Mortos), isto é, os cristãos já falecidos e “marcados com o sinal da fé”. Por sua vez, no dia anterior, em primeiro de novembro, a Igreja católica celebra a Solenidade de Todos os Santos que lembra os eleitos que se encontram na glória Deus”, tendo ou não sido canonizados oficialmente.

Por que essas datas foram escolhidas? Façamos um breve histórico para contribuir na compreensão das celebrações que são feitas na atualidade em diversos países da América Latina. De acordo com os historiadores, a data da celebração de Todos os Santos foi adotada pela primeira vez no século VIII na Inglaterra e, gradativamente, espalhou-se pelo império de Carlos Magno. No Reino dos Francos, os tempo do Rei Luís, o Piedoso passou a ser obrigatória a partir de um ato do Imperador provavelmente atendendo à solicitação do Papa Gregório IV (790-844). Posteriormente, por volta do ano de 998, a Abadia de Cluny determinou que todos os mosteiros de sua Ordem que, na data de 2 de novembro, fosse realizada a evocação de todos falecidos. Esta determinação foi recomendada a toda a comunidade cristã a partir das orientações dadas pelos Papas Silvestre II, João XVII e Leão IX.

Figura 1 – Abadia de Cluny na Borgonha, França

México e Brasil: aproximações com o Dia de los Muertos

Para os estudiosos, nas diferentes temporalidades, esse ritual festivo foi sofrendo alterações e, no caso da América Latina, el Dia de los Muertos é uma fusão com o Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados, tendo influência católica provocada pela invasão dos portugueses e espanhóis no continente americano. Por sua vez, em tempos antigos, a celebração tinha origem em cultos realizados pelos astecas, maias, purépechas e totonacas que celebravam seus ancestrais com festividades marcadas pela fartura de comida e por intermédio de oferendas. Os crânios dos falecidos eram guardados e depois devidamente exibidos nos rituais de celebração. Viva a pluralidade latino-americana!

No Brasil, no 2 de novembro, milhares de pessoas cumprem o ritual de visitarem os cemitérios levando flores e depositando-as nas lápides dos túmulos em memória dos familiares e/ou amigos que já morreram. Além disso, velas são acesas, orações são realizadas e cânticos são entoados sendo que a tristeza e a dor parecem marcar esses rituais.  Todavia, não devemos esquecer que a a morte é parte da vida, uma vez que essa é uma das poucas certezas que temos na vida, isto é, que um dia também morreremos. Assim, a lembrança e o legado de que já se foi podem ser re-elaborados e ganhar um viés festivo como acontece em alguns dos países latino-americanos. 

No México, na época de Finados, as pessoas dão as boas-vidas às almas que já partiram e, para tanto, oferecem flores, alimentos devidamente preparados para as celebrações e acendem velas e incensos. De acordo com as tradições populares locais, nestes dias, os mortos têm permissão divina para visitar parentes e amigos uma vez por ano. Em cada região mexicana, novos elementos são incorporados às festas, mas todas sempre marcadas pelo contentamento, pela sensação de paz e nada de morbidez! Para animar, as Calaveras, caveiras pintadas e decoradas de modo artístico, são vistas nas festas principalmente do México, mas também podem ser encontradas na Guatemala, El Salvador e Honduras. 

Figura 2 – La Calavera de la Catrina de José Guadalupe Posada. 

Na década de 1910, a gravura La Calvera Garbancera (A Caveira do Grão de Bico) foi criada pelo cartunista e ilustrador José Guadalupe Posada em referência às pessoas que vendiam grão de bico e, muitas vezes se faziam passar por europeus renegando suas origens indígenas. A obra de Posada apresentava um esqueleto enfeitado apenas com chapéu típico francês, que era referência para a moda da época, mas não deveria ofuscar as características da cultura mexicana, uma vez que diante da morte não importam as classes sociais. Em 1948, Diego Rivera (1886-1957) rebatizou a personagem chamando-a de La Catrina e colocou-a com roupas em seu mural Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central (Sonho de uma tarde dominical na Alameda Central). Com quase cento e cinquenta personagens, no mural é possível reconhecer Guadalupe Posada, Diego Rivera, Frida Kahlo, José Martí dentre outras personalidades. 

Figura 3 –  Detalhe do mural Sonho de uma tarde dominical na Alameda Central de Diego Rivera. 

A vida é desafiante e todos os anos no início de novembro observamos os rituais que envolvem homenagens, flores, túmulos e celebrações diversas pelas ruas das cidades latino-americanas. O importante é o reconhecimento de que os diferentes modos de vida, crenças, artes, línguas e tradições possuem o mesmo valor e acima de tudo o respeito deve prevalecer. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Abadia de Cluny. https://pt.wikipedia.org/wiki/Abadia_de_Cluny#/media/Ficheiro:Abbaye_de_Cluny_2012_27.jpg. Acesso em: 1 nov 2026.

ARIES, Philipe. História da morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003. 

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano. A essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

La Catrina. https://pt.wikipedia.org/wiki/La_Catrina. Acesso em: 1 nov 2026. 

México celebra anaiversário de “La Catrin”, célebre personagem local. https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/mexico-celebra-aniversario-de-la-catrina-celebre-personagem-local/ Acesso em: 1 nov 2026. 

No início de novembro, as celebrações de Finados e Todos os Santos apontam para a eternidade e o chamado à santidade. https://www.cnbb.org.br/celebracoes-finados-todos-os-santos-eternidade-santidade/ Acesso em: 1 nov 2026. 

REIS, João José. A morte é uma festa: Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. 

Sonho de uma tarde dominical na Alameda Central de Diego Rivera. https://en.wikipedia.org/wiki/Sue%C3%B1o_de_una_Tarde_Dominical_en_la_Alameda_Central. Acesso em: 1 nov 2026.